Quando uma empresa adopta uma ferramenta, está a tomar uma decisão que vai muito além da função imediata. Está a decidir quem manda na forma como vai trabalhar nos próximos anos. Essa decisão raramente é discutida nesses termos. Discute-se preço, funcionalidades, prazo de implementação. Não se discute uma pergunta mais incómoda e mais determinante: a partir do momento em que dependemos disto, quem decide como evolui?
Dependência não é o mesmo que utilização
Usar uma ferramenta de terceiros não cria dependência por si só. A maioria das empresas usa, e bem, infraestrutura que não controla: o ERP, a cloud, os sistemas de faturação obrigatórios. Essa camada partilha-se com toda a gente e não há vantagem nenhuma em recriá-la. A dependência problemática nasce noutro sítio. Nasce quando a forma específica de trabalhar de uma empresa, aquilo que a distingue, fica refém de um sistema que ela não controla e que evolui ao ritmo e segundo a vontade de outra pessoa.
O sinal de que se perdeu o controlo
Há uma frase que assinala a perda de controlo melhor do que qualquer auditoria: o sistema não deixa. Quando uma ideia de negócio razoável passa a depender de saber se a plataforma permite, deixou de ser a empresa a decidir o seu workflow. Passou a ser o fornecedor. Nas empresas com que trabalhamos, este momento chega quase sempre de surpresa, porque a dependência instala-se devagar, um remendo de cada vez, até ao dia em que mudar custa mais do que aguentar.
A camada que vale a pena ser de casa
A distinção útil é entre infraestrutura e workflow. A infraestrutura, onde vivem a escala e a regulação, faz todo o sentido alugar e partilhar. O workflow, a forma como a equipa trabalha, é o que merece ser de casa. Foi essa a razão pela qual desenvolvemos o nosso próprio software de gestão sobre a infraestrutura que já tínhamos. Não por desconfiança das ferramentas horizontais, que continuam por baixo a fazer o seu trabalho, mas porque a camada onde está a nossa diferença não devia ficar dependente da próxima decisão de produto de outra empresa.
Ser dono não é construir tudo
Há um equívoco frequente nesta conversa, o de que controlo significa fazer tudo de raiz. Não significa. Significa ser dono das peças que tornam o negócio o que ele é, e estar tranquilo a alugar as restantes. A questão não é construir contra comprar, como se fosse uma escolha única e definitiva. É saber, para cada peça, de que lado da fronteira ela deve cair, e tomar essa decisão de propósito, em vez de a deixar acontecer por inércia.
A pergunta que devia vir antes do contrato
Antes de assinar a próxima ferramenta, vale a pena uma pergunta simples: isto é infraestrutura, que posso partilhar sem perder nada, ou é o meu workflow, aquilo que me distingue? A resposta não obriga a construir. Obriga a decidir com olhos de ver de que lado fica o controlo, antes de ser tarde para o reaver.